Feliz Natal

Éramos eu e só mais outro passageiro naquele vagão da linha verde que rastejava melancolicamente pelas onze horas de uma noite qualquer entre Natal e Ano Novo. Um tipo moreno, lá com seus 35 anos, forte, o físico vindo mais de um trabalho violento na construção civil do que de academias. Os braços robustos pressionavam a camiseta vermelha repleta de palavras quaisquer escritas em inglês e o jeans descia largo pelas pernas, encontrando um tênis branco, muito limpo, de uma marca também qualquer. Não vi de imediato seu cabelo: um boné dos Yankees, combinando com o tênis, parecia brigar para se manter em cima daquele homem. Ele estava no fundo do vagão, cabeça encostada na parede, mãos grossas caídas pelas coxas. E olhos cobertos pelo pranto. Não um choro convulsivo, mas pesado; de lágrimas demoradas, aquelas que dão a impressão de esperar toda a dor se acumular para só então descerem pela face.

Sem livro, revista, iPhone ou outra distração, me restou analisar aquele sujeito, cuja dor não parecia merecer a luz esbranquiçada do metrô ou a voz cheia de tédio do operador anunciando as estações. Ele não prestava a menor atenção em mim; aparentemente, sua tragédia particular era suficiente para ocupar o alcance de sua visão. Cada lágrima parecia levar minutos para descer e eu mesmo comecei a sentir comoção pela tristeza daquele homem. O interesse do passatempo logo se mudou para identificação, mais do que um compartilhamento de sofrer, diferente de encontrar suas próprias angústias e espelhá-las no choro do outro; nada disso: agitou-se em mim uma obrigação de ter com aquele sujeito, de estender-lhe o ombro e garantir-lhe que ainda havia coisas belas no mundo, que aquelas lágrimas não seriam eternas.

Nesse momento minha cabeça evocou todos aqueles filmes em que desconhecidos simplesmente surgem em nossas vidas, olhando com curiosidade para tudo que nos parece cinza há muito tempo. A aceleração do meu coração aumentou ante a ideia de sair da imobilidade do cotidiano, de, uma vez, saltar da mediocridade e trazer a magia para o concreto da metrópole. Naquele hiato entre o Natal e o Ano Novo um homem escorria sua alma num vagão esquecido do metrô, solitário em sua desgraça, tendo como única testemunha alguém que, subitamente, despertara para a existência daquele instante – no qual percebeu que o mundo das outras pessoas realmente existe: elas não são simples coadjuvantes e figurantes de sua vida, também têm seus próprios roteiros. Assim, diante dessa convocação epifânica levantei e, grave, fui sentar junto ao homem. Somente quando estava a dois passos de seu banco ele notou que eu estava ali.

- Boa noite. Eu não quero atrapalhar, mas… Você gostaria de conversar?

Ele virou o pescoço lentamente, acompanhando o tempo de suas lágrimas, dando-se espaço suficiente para compreender que eu realmente estava ali diante dele – e por ele. Deteve-se muito em meus olhos, buscando sinceridade e confiança, analisando o quanto de maldade estaria por trás daquela mão estendida. Suave, inclinei a cabeça, pisquei e sorri levemente; a procura pela maior ternura que jamais havia oferecido a alguém. Enfim ele aceitou, agarrando meus olhos repleto de urgência.

- Hoje eu fui abandonado pelo meu namorado. Depois de quatro anos… Henrique. Esse é o nome do menino que a gente ia adotar, sabe? Henrique… Ele disse que não existe mais amor, mas quer garantir o respeito de um pelo outro. Eu mandei ele enfiar o respeito no…

E toda sua tristeza transbordou para cima de mim na forma de soluços em busca de fôlego, seus braços fortes perdendo qualquer rigidez e deslizando pelos meus ombros como se tivessem suportado peso pelo tempo da exaustão. Seu choro então adquiria o direito de ser convulsivo, de ofuscar a voz do operador e reclamar todas as luzes do vagão: sua dor ficara tempo demais escondida, à espera de alguém reconhecê-la e assim legitimar seu direito de impor-se perante a noite. Comprovei a gentileza das minhas palavras abraçando-o, oferecendo-lhe o conforto do calor de um corpo humano, afirmando através daquele contato físico que a vida ainda existia nele.

Foi um abraço demorado, e só terminou quando seu peito parou de saltar e ele passou a mão pelos olhos, concedendo-se o direito de repousar um pouco de sua dor para enxergar ao redor. Ele me olhava em tons de agradecimento e súplica, queria me dever a vida e agarrar-se a minha própria, como se eu pudesse apartar-lhe da hostilidade que o mundo insistia em oferecer. Senti que, se parasse ali, seria mais cruel do que o homem que o deixara numa daquelas noites natalinas; trairia o pequeno brilho de esperança que havia surgido naquela criatura fraturada pelo abandono. Assim, continuei me inspirando nos filmes, tomei-o pelos ombros, baixei levemente os olhos e, devagar, apresentando todo meu respeito e sinceridade, aproximei meus lábios para um longo beijo; estendia-lhe a esperança e, ao mesmo tempo, permitia-me meu quinhão de caprichos carnais.

- Quando uma boca te abandona deixa seus lábios à espera de novos beijos.

Nesse momento as portas se abriram e, pela primeira vez em cinco estações, alguém juntou-se a nós. Meia dúzia de garotos e garotas entrou pulando aos versos de Taj Mahal, despejando uma alegria rude no vagão. Meu novo amigo riu como uma criança num salão de carnaval. Eu retribuí o seu prazer.

3 Respostas para “Feliz Natal”

  1. Gostei da mudança de temática, mas ainda explorando aquela coisa do microcosmo cotidiano.
    Tem muito a se explorar e escrever sobre as pessoas além das mazelas sociais!

  2. Imaginei ele parecido com o grandão do A Espera de Um Milagre.

  3. Marcelo Fidalgo Neves Diz:

    Bacana, gostei de desse conto. Sutil, sensível, sem ser piegas. Bacana.

    Você narrou um simples acontecimento, não acontece nada fantástico, na imprevisível, mas faz a gente refletir, o leitor refletir.
    Curti.

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