As Pessoas do Sol
O conflito agrário não evidencia somente a busca do oligarca em massacrar despossuídos na tentativa repugnante de arrebatar o máximo de lucro e poder para si mesmo: antes, se apresenta como um urro da natureza humana, avisando a manada de que ainda não compreendemos exatamente essa ideia de civilização.
As Pessoas do Sol
Uma arma preparada a mais de 90 metros de distância, a mesma arma há 511 anos, escondida entre o mato selvagem e a vergonha. Como testemunha silenciosa o Sol, ocupado em transformar energia humana em suor, massacrando forças há muito diluídas na lavoura: na cana, no café, na cana outra vez. A vida doce, uma vida braçal. Agora é a volta para casa no horário do almoço. Será a última, pois é também a volta ao pó da terra.
A passagem: um estrondo perfurando o peito.
O trabalhador engasga, leva a mão ao ferimento, cambaleia e procura: apenas o Sol. Ao cair, sangue se mistura com terra e suor, a poeira levanta e uma fuga representa a única marcação da marcha fúnebre. A humanidade se despede de mais um militante sentenciado por contestar a lei do mais forte. Seus bolsos estão cheios de indignação e denúncia – o jornal sindical, a acusação, a carta de ameaça, as reivindicações por justiça social. Um bolso cheio de munição – aquela cujo alvo é a doença, não o sintoma. Mas a bala de metal, essa atinge mais rápido, e procura o indivíduo solitário, fraco longe de seu coletivo.
Como assassino, outro usurpado da terra, miserável sem a consciência da exploração. Desconhece que aquela bala também atinge suas vísceras, também fere seu estômago vazio, drena suas forças e impede a emancipação do sujeito, seu pleno desenvolvimento. A maldita tocaia se destina tanto para o executado quanto para o executor.
Ele foge pela plantação, a mão que segura a arma não sabe se segurará um garfo esta noite. Possivelmente seguirá para bem longe e será pego, condenado e apodrecido no meio de muitos outros irmanados pelo abandono da sociedade do capital. Com sorte talvez escape, mas continuará acorrentado: um capitão do mato alforriado caçando incessantemente seus companheiros de senzala.
O Sol queima e as aves carniceiras saúdam o trabalhador caído. Depois os companheiros de jornada o encontram, espantam os abutres. O Sol se esconde, insensível com a dor de seu povo. Ou envergonhado por deixar a desgraça toda em suas mãos.
Vem o tempo da despedida.
A procisão de indignados rasga a estrada de terra com o caixão do companheiro. Entoam hinos de luta e esperança, punhos cerrados para o Sol, contra o Sol. Enxadas, foices, instrumentos de emancipação convertidos em grilhões – é a hora de voltarem a servir ao homem. A bandeira é vermelha pelo sangue de muitos: o morto de agora é só outro verso da canção de refrão renitente. Mas a bala que perfura o coração e interrompe a corrente sanguínea não extermina a caminhada. Um trabalhador tomba, outros estão se levantando para continuar a luta. O latifúndio não é eterno quando a mobilização vence a espingarda. A reforma agrária é o movimento das ondas chocando-se contra a pedra: inevitavelmente o sólido se converterá em muitos, espalhados por toda a praia.
Essas são as Pessoas do Sol.
A radiação, forte demais, nos ofusca, porque olhamos diretamente para ela. Façamos como aqueles que marcham carregando o corpo do companheiro: desviemos o olhar para a terra. Aí sim a luz se revelará fonte de vida e crescimento.
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