No Coletivo
- Primeiramente boa noite, senhoras e senhores. Meu nome é Robson e eu estou aqui humildemente pedindo a colaboração de vocês.
Diante da catraca é a barba de sete dias, a camiseta branca da legião, uma bermuda nicoboco da barão de itapetininga e o chinelão de dedo. No braço esquerdo aquela índia oscila entre o lascivo e o comédia e na panturrilha direita é o tio patinhas rachando o bico, matuto, matuto.
- Sou ex-presidiário, tenho duas filhas e estou atualmente desempregado. Trabalho vendendo canetas no farol, mas infelizmente as condições não são suficientes para sustentar a minha família. Tentei procurar emprego com carteira assinada, mas ninguém quer contratar uma pessoa que já esteve na cadeia.
Do outro lado, só mais um ônibus entediado com a pobreza. No Lauzane 178L descarrilhando por uma Consolação iluminada pela artificialidade do Natal tudo que a dúzia de passageiros lá dentro quer é tacar o foda-se pros problemas alheios: vidas fodidas o suficiente pra não tolerar coadjuvante. Um já vira o pescoço pra janela, dois enfia a cara no romance espírita; três desembesta a falar merda pra cobrir a vergonha. Vergonha fodida da própria mesquinhês.
- Fui condenado a sete anos e três meses por ter participado de um assalto que resultou na morte de duas pessoas, e essa informação consta na minha ficha, de modo que é muito difícil alguém me oferecer uma oportunidade. Venho buscando evitar cair novamente nessa vida, e espero que com a ajuda de vocês e principalmente de Deus eu consiga levar uma vida decente para não envergonhar as minhas filhas. Por isso, peço humildemente a contribuição de vocês, com o que cada um puder dar, de coração. Desejo a todos uma boa noite, boa viagem e fiquem com Deus.
Na primeira fila do vaudeville de miséria Caio Túlio fecha os olhos e se entrega ao Mastruz com Leite do celular, sonhando com a Jéssika em João Pessoa e pouco se fodendo se a Melissinha, a morena princesinha no banco de trás, odeia forró e gostaria de estar acompanhada do Marcão, o noivo, pra mandar um apavoro firmeza naquele paraíba desgraçado. Dois bancos depois o Sandoval cola mais ainda a Bíbla no nariz e sente bater a vergonha dos três steak de frango + refresco de caju deglutidos na meia hora passada: vergonha de não querer tirar cinquenta centavos da carteira pro necessitado. Mas ele é um bom cristão, faz a sua parte. Já ali do outro lado a Joana não tá nem aí e continua com as estrepolias do espírito de Lucius enquanto a Catarina regurgita impropérios a respeito da Solange no celular: onde já se viu dar em cima de homem dos outros, cadela safada dos meus corno? Seu Antunes finge prestar atenção no jornal, nariz inteligente, uma expectativa covarde para que seus olhos não cruzem com os do pedinte. Cruzaram. Vacilante, enfia a mão no bolso e aplaca a consciência, reparte as migalhas. Igual a Jocimara que lutando pra solidificar seu moleque no banco lembra da nota de dez achada na teodoro sampaio e retribui o sorriso da sorte com os dez centavos do troco do sudoku. O casal Maxwell Martelo e Karen Comidinha reclama do produtor, filho da puta corno que tem mesmo é que tomar no cu, Andrey brisa no Nietzsche de bolso e, do lado, Rubens viaja em 91, uma puta cara de vacilão e o Axl Rose esperneando don’t you cry no seu ouvido.
Tudo sob os olhos monitorantes de Robson, de um lado a outro do coletivo, na caminhada lenta, expectante nos pequenos gestos do populacho. Estende a mão aqui, Deus te abençoe ali, olhos escorridos acolá; indo e indo, e depois voltando. Para de novo em frente a catraca. Conta a mixaria. Termina com 95 centavos: três moedas de 25, uma de 10 e duas de 5. Reconta, como que pra não ter dúvida da consequência. 95 centavos. Ele tentou.
- Escuta aqui, bando de filho da puta! Eu pedi de boa, na humildade, na humilhação. Tenho duas filhas em casa que tão passando fome e vocês não me dão nem a porra de um real? Cêis tão achando o que, caralho? Tão de zoação pra cima de mim, bando de cuzão? Eu pedi na boa, não rolou a colaboração, agora vai ser na base do esperneio memo, procêis aprender a ficar na firma, falô, ajudar na necessidade. Vô esculhachá geral, seus filha da puta!
E então, sacando a dignidade da cintura, Robson exibe o trinta e oito pra todo o Lauzane 178L. Metade da geral se mija, a outra metade se mija e grita e o paraíba Caio Túlio é o premiado pra sentir o ferro frio no meio da testa. A Melissinha aperta mais a bolsa na barriga; puta vacilona, por que não enfiou o pagamento na calcinha? Numa cidade osso pra porra, ficar andando com dinheiro fácil? Tem mesmo é que rodar. O Sandoval pisa fundo no pai nosso, pensando no filho, na filha, no outro filho, na esposa, no outro filho, na mulher, na vizinha, na sobrinha, na cunhada, no outro filho e em si mesmo. Por que não pegou o primeiro ônibus com o Martins? Agora esse era o castigo de Deus pelo pecado da canseira. Seu Antunes estremelece e morde a língua – ai caramba! Devia ter ficado antes da catraca, claro. Agora corria risco pela imprudência: outra presa da cidade selva. A Karen Comidinha enterra a cabeça aos soluços no ombro do Maxwell Martelo, que fica de pau duro, na dúvida entre mostrar o macho interior ou tremer pela própria vida. E o Rubens reafirma a cara de vacilão.
Mas então o Seu Antunes, sabe-se lá porque caralho, escolhe virar herói da noite. Sustenta as pernas úmidas tremeliquentas dentro da calça cáqui, envermelha por toda a calvície e aponta o dedo na indignação mais comovida que Jacinto, cobrador há mais de 17 anos, já espectou dentro de um ônibus.
- Espera um pouco aí, homem! Todo mundo aqui sabe que você tá passando por problemas, que viveu muitas dificuldades e tem todo o direito de estar revoltado. Mas o que que é isso, Meu Deus? Você tá vindo aqui e botando medo e roubando gente tão na merda quanto você, poxa vida! Você acha que alguém aqui, nesse ônibus, às dez e meia da noite, tem alguma coisa pra te dar que não vai fazer falta? Se o dinheiro que a gente te deu foi pouco é porque ninguém tem mesmo pra dar, não porque é mau caráter. Você devia fazer isso que você tá fazendo lá em Brasília, ou na prefeitura, ou com os deputados: lá sim tem dinheiro e lá sim tá cheio de safado. Agora, a gente, aqui de noite, pai, mãe de família, trabalhador, tendo que passar por isso? Põe a mão na consciência, homem! Isso só vai destruir mais a sua vida. Deixa essa arma aí, isso não te leva pra lugar nenhum, só vai te botar na cadeia de novo. É isso que você quer pra suas filhas?
No primeiro um dois do discurso o Lauzane 178L todo já pensa que o tiozinho chato pra porra com cara de folgado vai levar uma no meio da cara pra aprender a brincar de duro ou mole. O Maxwell Martelo, inclusive, ali atrás do Seu Antunes, se afunda todo no banco com um puta medaço de sobrar tiro por engano. Mas, como uma espécie de milagre natalino, Robson simplesmente hesita. A luz alaranjada ali debaixo do minhocão rebate duas ou três vezes no seu rosto paralisado e depois a arma desmorona da sua mão. Simples assim. E, mais surpreendente ainda, as lágrimas aceleram; ele desmonta num choro soluçado, todo pranto desespero na frente do picadeiro da catraca, quase uma criança com o rosto entre as mãos, a índia num vai-e-vem bastante sexual.
POFT!
Tacando o foda-se pros problemas alheios, o Nonato, baianão robusto da porra criado na construção civil, inédito até agora na história porque ficou na frente do ônibus garantindo a integração, usa o senso de oportunidade que Deus lhe deu e desce uma baita muquetada na nuca do infeliz. O tapão é tão vigoroso que faz Robson trançar as pernas duas vezes e desmontar no chão feito um monte de bosta. Todo o coletivo acompanha a cena; emudecidos, pálidos paralisados pensativos. Por um sinal vermelho inteiro ninguém parece vivo ali. Até que, ainda de pé, puxando o fôlego das pernas xiliquentas, Seu Antunes dá a letra, explodindo em ar e saliva toda a honra enfiada no cu:
- LINCHA O FILHO DA PUTA!
Seu pulo espartano garante o privilégio da primeira bica no nariz do filho da puta e bota todo o coletivo na festa da desforra. Ligado nas necessidades do povo, Tião dobra uma viela escura e para o ônibus: todo mundo tem o direito de arrancar seu quinhão de vinganç da desigualdade social.
Um ligeiro desassossego noturno no Lauzane 178L.
27/12/2010 às 23:49
Feliz Natal!
27/12/2010 às 23:57
Bem Quentin Tarantino essa reviravolta!
28/12/2010 às 12:57
eita preula!
[ps: olha, o andrey veio passar as férias no Brasil]
03/01/2011 às 11:29
Mais um conto com morte e violencia física. Ainda estou para ler algum texto seu sem nenhum assassinato.
Mas está bacana esse daí.
04/01/2011 às 14:44
Sen-sa-cio-nal.