Vitórias

Postado em Vitórias com as tags , , em 12/02/2011 por luizprado

Comemoro as vitórias de minha vida em silêncio, com punhos cerrados e sentimentos de vingança e de recompensa acelerando as batidas do coração. Cada conquista representa um escarro nos rostos de todos que não me deram importância, me subestimaram ou deixaram para trás. Essas celebrações mudas e solitárias sou eu afirmando a mim mesmo meu valor.

E por que se repetem dessa forma? Ora, por um lado as pessoas me subestimam e abandonam; por outro, estou convicto de que não me querem bem. Eis a razão. Não preciso de falsos sorrisos e felicitações maculadas, tampouco olhares invejosos apodrecendo minhas conquistas. Decerto isso não ocorre sempre – para certos indivíduos sou tão insignificante que não mereço nem seus pensamentos maliciosos – mas tampouco consigo acreditar em alguém satisfeito por ocasião de minhas realizações. A felicidade pela vitória alheia jamais me pareceu sincera, menos quando vinda de meus familiares próximos. Deles aceito sorrisos e abraços; acredito no amor sanguíneo.

Talvez essa posição explique o frio que sinto ao meu redor – ou o sábado à noite sozinho em casa. Se minha vitória é multissensorial, afirmo que, agora, seu gosto é amargo.

Café

Postado em Café com as tags , , em 31/01/2011 por luizprado

O que me resta de você é soterrado por doses desesperadas de café. Não sei como começou, talvez pela impossibilidade de me entupir de álcool quando estava sob efeito daqueles antibióticos e antiinflamatórios. Muito café, até as mãos tremerem e os olhos ficarem sem lugar de repouso. Sem possibilidade de fixar qualquer pensamento em sua lembrança. O que me resta de você sou eu sofrendo.

Sabe, você não foi a pior merda que já me aconteceu, mas sei claramente que também passou longe de ser a melhor. Minha única certeza é de estar vivendo a mais longa bad trip da história e estar me fodendo muito mais do que gostaria. Você não entende, mas perdi até mesmo o tesão em foder com a Aninha, só por aqueles quinze minutos de conversa lá no bar – e ela manda bem. Como posso te dizer, tudo caminhava tranquilo, eu estava bem, tratando a menina da maneira certa, longe daquele ciúme corrosivo, despojado de qualquer possessividade. Mas aí você sorriu na minha frente mais uma vez – e entendi que eu não estava enganando a Aninha, só a mim mesmo.

E agora sou eu me narcotizando ainda mais na cafeína, a tentativa de curar essa dor de cabeça crônica, os litros de bebida que foderam com o passeio da adenosina pelos neurônios me ajudando a turvar o olhar desse fim de semana. Não deixei de ver você, claro, mas os momentos dançavam tão entrecortados e fugidios que me convenci de estar só lembrando dos vultos do passado. O chefe já entendeu meu ligeiro sobressalto e, pra evitar ouvir merda, decidi disparar toda essa porra de frustração ansiosa em forma de palavras.

Você deveria se sentir muito especial agora. Mas eu tô ligado que nem isso você faria por mim, sua filha da puta.

Nunca sei seu olhar

Postado em Nunca sei seu olhar com as tags , , em 20/01/2011 por luizprado

Pedi um café expresso, ela me acompanhou e comecei a falar tudo de mim, pra não ter que ouvir nada dela. Oito meses desde o último olhar; seus cabelos compridos, o sapato novo, a mesma bolsa grande demais. De mim, dei conta de menos cabelos, mais olheiras e algumas feridas cicatrizadas. Talvez.

O rancor era meu, projetado como raiva pra obliterar a dor. Mas o telefonema não foi, confirmando, depois de tanto tempo, que eu ainda precisava dela pra enxergar minha babaquice. Fui pensativo, olhando pros lados, implorando com meus gestos pra não saber do novo namorado, da viagem pra Europa ou de qualquer outra memória na qual eu gostaria de estar. Ela foi desarmada, e sua falta de vontade de me machucar destruiu qualquer resistência.

Não tocamos no assunto, embora eu tivesse estudado as palavras por todo o caminho. Não significava mais saber os motivos daquele convite, não me traria nada além da tristeza do passado. Diante um do outro, os vapores do café subindo entre nós, era como se apenas o presente merecesse existência e toda referência viesse apenas destruir aquele tênue equilíbrio entre palavras e olhares.

O dela não me dizia nada. Ou melhor, mostrava uma ternura que eu não entendia, ou não queria aceitar. Talvez um convite à amizade ou uma saudade tímida pra sair em palavras. Uma bondade sem dar muita relevância a quem se dirige. Talvez a certeza de estar elaborando um ponto final agradável pra nossas memórias. Eu achava tantos reflexos das minhas inseguranças em seu olhar que acabava, como havia sido desde o começo, sem saber nada do que eles queriam me falar.

Ficamos juntos por duas horas, até que não suportei um silêncio mais prolongado – não queria perguntar nada e ela já não tinha coisa alguma que desconhecesse dos meus últimos oito meses. Levantei e conheci mais uma vez a gentileza de lhe pagar a conta, ao mesmo tempo em que tive certeza de termos enterrado toda possibilidade da sombra do passado nos alcançar. Pra ela, estava agradável assim.

Sob um céu sem estrelas, ela sorriu sem o coração, e disse pra ligar quando quisesse fazer alguma coisa. E então se foi no terceiro ônibus, depois que lhe convenci não fazer sentido esperar que eu embarcasse primeiro. Fiquei por ali, sentindo o abraço do sódio que ilumina a cidade e cantarolando aquela canção de amor.

Feliz Natal

Postado em Feliz Natal com as tags , , em 12/01/2011 por luizprado

Éramos eu e só mais outro passageiro naquele vagão da linha verde que rastejava melancolicamente pelas onze horas de uma noite qualquer entre Natal e Ano Novo. Um tipo moreno, lá com seus 35 anos, forte, o físico vindo mais de um trabalho violento na construção civil do que de academias. Os braços robustos pressionavam a camiseta vermelha repleta de palavras quaisquer escritas em inglês e o jeans descia largo pelas pernas, encontrando um tênis branco, muito limpo, de uma marca também qualquer. Não vi de imediato seu cabelo: um boné dos Yankees, combinando com o tênis, parecia brigar para se manter em cima daquele homem. Ele estava no fundo do vagão, cabeça encostada na parede, mãos grossas caídas pelas coxas. E olhos cobertos pelo pranto. Não um choro convulsivo, mas pesado; de lágrimas demoradas, aquelas que dão a impressão de esperar toda a dor se acumular para só então descerem pela face.

Sem livro, revista, iPhone ou outra distração, me restou analisar aquele sujeito, cuja dor não parecia merecer a luz esbranquiçada do metrô ou a voz cheia de tédio do operador anunciando as estações. Ele não prestava a menor atenção em mim; aparentemente, sua tragédia particular era suficiente para ocupar o alcance de sua visão. Cada lágrima parecia levar minutos para descer e eu mesmo comecei a sentir comoção pela tristeza daquele homem. O interesse do passatempo logo se mudou para identificação, mais do que um compartilhamento de sofrer, diferente de encontrar suas próprias angústias e espelhá-las no choro do outro; nada disso: agitou-se em mim uma obrigação de ter com aquele sujeito, de estender-lhe o ombro e garantir-lhe que ainda havia coisas belas no mundo, que aquelas lágrimas não seriam eternas.

Nesse momento minha cabeça evocou todos aqueles filmes em que desconhecidos simplesmente surgem em nossas vidas, olhando com curiosidade para tudo que nos parece cinza há muito tempo. A aceleração do meu coração aumentou ante a ideia de sair da imobilidade do cotidiano, de, uma vez, saltar da mediocridade e trazer a magia para o concreto da metrópole. Naquele hiato entre o Natal e o Ano Novo um homem escorria sua alma num vagão esquecido do metrô, solitário em sua desgraça, tendo como única testemunha alguém que, subitamente, despertara para a existência daquele instante – no qual percebeu que o mundo das outras pessoas realmente existe: elas não são simples coadjuvantes e figurantes de sua vida, também têm seus próprios roteiros. Assim, diante dessa convocação epifânica levantei e, grave, fui sentar junto ao homem. Somente quando estava a dois passos de seu banco ele notou que eu estava ali.

- Boa noite. Eu não quero atrapalhar, mas… Você gostaria de conversar?

Ele virou o pescoço lentamente, acompanhando o tempo de suas lágrimas, dando-se espaço suficiente para compreender que eu realmente estava ali diante dele – e por ele. Deteve-se muito em meus olhos, buscando sinceridade e confiança, analisando o quanto de maldade estaria por trás daquela mão estendida. Suave, inclinei a cabeça, pisquei e sorri levemente; a procura pela maior ternura que jamais havia oferecido a alguém. Enfim ele aceitou, agarrando meus olhos repleto de urgência.

- Hoje eu fui abandonado pelo meu namorado. Depois de quatro anos… Henrique. Esse é o nome do menino que a gente ia adotar, sabe? Henrique… Ele disse que não existe mais amor, mas quer garantir o respeito de um pelo outro. Eu mandei ele enfiar o respeito no…

E toda sua tristeza transbordou para cima de mim na forma de soluços em busca de fôlego, seus braços fortes perdendo qualquer rigidez e deslizando pelos meus ombros como se tivessem suportado peso pelo tempo da exaustão. Seu choro então adquiria o direito de ser convulsivo, de ofuscar a voz do operador e reclamar todas as luzes do vagão: sua dor ficara tempo demais escondida, à espera de alguém reconhecê-la e assim legitimar seu direito de impor-se perante a noite. Comprovei a gentileza das minhas palavras abraçando-o, oferecendo-lhe o conforto do calor de um corpo humano, afirmando através daquele contato físico que a vida ainda existia nele.

Foi um abraço demorado, e só terminou quando seu peito parou de saltar e ele passou a mão pelos olhos, concedendo-se o direito de repousar um pouco de sua dor para enxergar ao redor. Ele me olhava em tons de agradecimento e súplica, queria me dever a vida e agarrar-se a minha própria, como se eu pudesse apartar-lhe da hostilidade que o mundo insistia em oferecer. Senti que, se parasse ali, seria mais cruel do que o homem que o deixara numa daquelas noites natalinas; trairia o pequeno brilho de esperança que havia surgido naquela criatura fraturada pelo abandono. Assim, continuei me inspirando nos filmes, tomei-o pelos ombros, baixei levemente os olhos e, devagar, apresentando todo meu respeito e sinceridade, aproximei meus lábios para um longo beijo; estendia-lhe a esperança e, ao mesmo tempo, permitia-me meu quinhão de caprichos carnais.

- Quando uma boca te abandona deixa seus lábios à espera de novos beijos.

Nesse momento as portas se abriram e, pela primeira vez em cinco estações, alguém juntou-se a nós. Meia dúzia de garotos e garotas entrou pulando aos versos de Taj Mahal, despejando uma alegria rude no vagão. Meu novo amigo riu como uma criança num salão de carnaval. Eu retribuí o seu prazer.

As Pessoas do Sol

Postado em As Pessoas do Sol com as tags , , em 03/01/2011 por luizprado

O conflito agrário não evidencia somente a busca do oligarca em massacrar despossuídos na tentativa repugnante de arrebatar o máximo de lucro e poder para si mesmo: antes, se apresenta como um urro da natureza humana, avisando a manada de que ainda não compreendemos exatamente essa ideia de civilização.

As Pessoas do Sol

Uma arma preparada a mais de 90 metros de distância, a mesma arma há 511 anos, escondida entre o mato selvagem e a vergonha. Como testemunha silenciosa o Sol, ocupado em transformar energia humana em suor, massacrando forças há muito diluídas na lavoura: na cana, no café, na cana outra vez. A vida doce, uma vida braçal. Agora é a volta para casa no horário do almoço. Será a última, pois é também a volta ao pó da terra.

A passagem: um estrondo perfurando o peito.

O trabalhador engasga, leva a mão ao ferimento, cambaleia e procura: apenas o Sol. Ao cair, sangue se mistura com terra e suor, a poeira levanta e uma fuga representa a única marcação da marcha fúnebre. A humanidade se despede de mais um militante sentenciado por contestar a lei do mais forte. Seus bolsos estão cheios de indignação e denúncia – o jornal sindical, a acusação, a carta de ameaça, as reivindicações por justiça social. Um bolso cheio de munição – aquela cujo alvo é a doença, não o sintoma. Mas a bala de metal, essa atinge mais rápido, e procura o indivíduo solitário, fraco longe de seu coletivo.

Como assassino, outro usurpado da terra, miserável sem a consciência da exploração. Desconhece que aquela bala também atinge suas vísceras, também fere seu estômago vazio, drena suas forças e impede a emancipação do sujeito, seu pleno desenvolvimento. A maldita tocaia se destina tanto para o executado quanto para o executor.

Ele foge pela plantação, a mão que segura a arma não sabe se segurará um garfo esta noite. Possivelmente seguirá para bem longe e será pego, condenado e apodrecido no meio de muitos outros irmanados pelo abandono da sociedade do capital. Com sorte talvez escape, mas continuará acorrentado: um capitão do mato alforriado caçando incessantemente seus companheiros de senzala.

O Sol queima e as aves carniceiras saúdam o trabalhador caído. Depois os companheiros de jornada o encontram, espantam os abutres. O Sol se esconde, insensível com a dor de seu povo. Ou envergonhado por deixar a desgraça toda em suas mãos.

Vem o tempo da despedida.

A procisão de indignados rasga a estrada de terra com o caixão do companheiro. Entoam hinos de luta e esperança, punhos cerrados para o Sol, contra o Sol. Enxadas, foices, instrumentos de emancipação convertidos em grilhões – é a hora de voltarem a servir ao homem. A bandeira é vermelha pelo sangue de muitos: o morto de agora é só outro verso da canção de refrão renitente. Mas a bala que perfura o coração e interrompe a corrente sanguínea não extermina a caminhada. Um trabalhador tomba, outros estão se levantando para continuar a luta. O latifúndio não é eterno quando a mobilização vence a espingarda. A reforma agrária é o movimento das ondas chocando-se contra a pedra: inevitavelmente o sólido se converterá em muitos, espalhados por toda a praia.

Essas são as Pessoas do Sol.

A radiação, forte demais, nos ofusca, porque olhamos diretamente para ela. Façamos como aqueles que marcham carregando o corpo do companheiro: desviemos o olhar para a terra. Aí sim a luz se revelará fonte de vida e crescimento.

No Coletivo

Postado em No Coletivo com as tags , , em 27/12/2010 por luizprado

- Primeiramente boa noite, senhoras e senhores. Meu nome é Robson e eu estou aqui humildemente pedindo a colaboração de vocês.

Diante da catraca é a barba de sete dias, a camiseta branca da legião, uma bermuda nicoboco da barão de itapetininga e o chinelão de dedo. No braço esquerdo aquela índia oscila entre o lascivo e o comédia e na panturrilha direita é o tio patinhas rachando o bico, matuto, matuto.

- Sou ex-presidiário, tenho duas filhas e estou atualmente desempregado. Trabalho vendendo canetas no farol, mas infelizmente as condições não são suficientes para sustentar a minha família. Tentei procurar emprego com carteira assinada, mas ninguém quer contratar uma pessoa que já esteve na cadeia.

Do outro lado, só mais um ônibus entediado com a pobreza. No Lauzane 178L descarrilhando por uma Consolação iluminada pela artificialidade do Natal tudo que a dúzia de passageiros lá dentro quer é tacar o foda-se pros problemas alheios: vidas fodidas o suficiente pra não tolerar coadjuvante. Um já vira o pescoço pra janela, dois enfia a cara no romance espírita; três desembesta a falar merda pra cobrir a vergonha. Vergonha fodida da própria mesquinhês.

- Fui condenado a sete anos e três meses por ter participado de um assalto que resultou na morte de duas pessoas, e essa informação consta na minha ficha, de modo que é muito difícil alguém me oferecer uma oportunidade. Venho buscando evitar cair novamente nessa vida, e espero que com a ajuda de vocês e principalmente de Deus eu consiga levar uma vida decente para não envergonhar as minhas filhas. Por isso, peço humildemente a contribuição de vocês, com o que cada um puder dar, de coração. Desejo a todos uma boa noite, boa viagem e fiquem com Deus.

Na primeira fila do vaudeville de miséria Caio Túlio fecha os olhos e se entrega ao Mastruz com Leite do celular, sonhando com a Jéssika em João Pessoa e pouco se fodendo se a Melissinha, a morena princesinha no banco de trás, odeia forró e gostaria de estar acompanhada do Marcão, o noivo, pra mandar um apavoro firmeza naquele paraíba desgraçado. Dois bancos depois o Sandoval cola mais ainda a Bíbla no nariz e sente bater a vergonha dos três steak de frango + refresco de caju deglutidos na meia hora passada: vergonha de não querer tirar cinquenta centavos da carteira pro necessitado. Mas ele é um bom cristão, faz a sua parte. Já ali do outro lado a Joana não tá nem aí e continua com as estrepolias do espírito de Lucius enquanto a Catarina regurgita impropérios a respeito da Solange no celular: onde já se viu dar em cima de homem dos outros, cadela safada dos meus corno? Seu Antunes finge prestar atenção no jornal, nariz inteligente, uma expectativa covarde para que seus olhos não cruzem com os do pedinte. Cruzaram. Vacilante, enfia a mão no bolso e aplaca a consciência, reparte as migalhas. Igual a Jocimara que lutando pra solidificar seu moleque no banco lembra da nota de dez achada na teodoro sampaio e retribui o sorriso da sorte com os dez centavos do troco do sudoku. O casal Maxwell Martelo e Karen Comidinha reclama do produtor, filho da puta corno que tem mesmo é que tomar no cu, Andrey brisa no Nietzsche de bolso e, do lado, Rubens viaja em 91, uma puta cara de vacilão e o Axl Rose esperneando don’t you cry no seu ouvido.

Tudo sob os olhos monitorantes de Robson, de um lado a outro do coletivo, na caminhada lenta, expectante nos pequenos gestos do populacho. Estende a mão aqui, Deus te abençoe ali, olhos escorridos acolá; indo e indo, e depois voltando. Para de novo em frente a catraca. Conta a mixaria. Termina com 95 centavos: três moedas de 25, uma de 10 e duas de 5. Reconta, como que pra não ter dúvida da consequência. 95 centavos. Ele tentou.

- Escuta aqui, bando de filho da puta! Eu pedi de boa, na humildade, na humilhação. Tenho duas filhas em casa que tão passando fome e vocês não me dão nem a porra de um real? Cêis tão achando o que, caralho? Tão de zoação pra cima de mim, bando de cuzão? Eu pedi na boa, não rolou a colaboração, agora vai ser na base do esperneio memo, procêis aprender a ficar na firma, falô, ajudar na necessidade. Vô esculhachá geral, seus filha da puta!

E então, sacando a dignidade da cintura, Robson exibe o trinta e oito pra todo o Lauzane 178L. Metade da geral se mija, a outra metade se mija e grita e o paraíba Caio Túlio é o premiado pra sentir o ferro frio no meio da testa. A Melissinha aperta mais a bolsa na barriga; puta vacilona, por que não enfiou o pagamento na calcinha? Numa cidade osso pra porra, ficar andando com dinheiro fácil? Tem mesmo é que rodar. O Sandoval pisa fundo no pai nosso, pensando no filho, na filha, no outro filho, na esposa, no outro filho, na mulher, na vizinha, na sobrinha, na cunhada, no outro filho e em si mesmo. Por que não pegou o primeiro ônibus com o Martins? Agora esse era o castigo de Deus pelo pecado da canseira. Seu Antunes estremelece e morde a língua – ai caramba! Devia ter ficado antes da catraca, claro. Agora corria risco pela imprudência: outra presa da cidade selva. A Karen Comidinha enterra a cabeça aos soluços no ombro do Maxwell Martelo, que fica de pau duro, na dúvida entre mostrar o macho interior ou tremer pela própria vida. E o Rubens reafirma a cara de vacilão.

Mas então o Seu Antunes, sabe-se lá porque caralho, escolhe virar herói da noite. Sustenta as pernas úmidas tremeliquentas dentro da calça cáqui, envermelha por toda a calvície e aponta o dedo na indignação mais comovida que Jacinto, cobrador há mais de 17 anos, já espectou dentro de um ônibus.

- Espera um pouco aí, homem! Todo mundo aqui sabe que você tá passando por problemas, que viveu muitas dificuldades e tem todo o direito de estar revoltado. Mas o que que é isso, Meu Deus? Você tá vindo aqui e botando medo e roubando gente tão na merda quanto você, poxa vida! Você acha que alguém aqui, nesse ônibus, às dez e meia da noite, tem alguma coisa pra te dar que não vai fazer falta? Se o dinheiro que a gente te deu foi pouco é porque ninguém tem mesmo pra dar, não porque é mau caráter. Você devia fazer isso que você tá fazendo lá em Brasília, ou na prefeitura, ou com os deputados: lá sim tem dinheiro e lá sim tá cheio de safado. Agora, a gente, aqui de noite, pai, mãe de família, trabalhador, tendo que passar por isso? Põe a mão na consciência, homem! Isso só vai destruir mais a sua vida. Deixa essa arma aí, isso não te leva pra lugar nenhum, só vai te botar na cadeia de novo. É isso que você quer pra suas filhas?

No primeiro um dois do discurso o Lauzane 178L todo já pensa que o tiozinho chato pra porra com cara de folgado vai levar uma no meio da cara pra aprender a brincar de duro ou mole. O Maxwell Martelo, inclusive, ali atrás do Seu Antunes, se afunda todo no banco com um puta medaço de sobrar tiro por engano. Mas, como uma espécie de milagre natalino, Robson simplesmente hesita. A luz alaranjada ali debaixo do minhocão rebate duas ou três vezes no seu rosto paralisado e depois a arma desmorona da sua mão. Simples assim. E, mais surpreendente ainda, as lágrimas aceleram; ele desmonta num choro soluçado, todo pranto desespero na frente do picadeiro da catraca, quase uma criança com o rosto entre as mãos, a índia num vai-e-vem bastante sexual.

POFT!

Tacando o foda-se pros problemas alheios, o Nonato, baianão robusto da porra criado na construção civil, inédito até agora na história porque ficou na frente do ônibus garantindo a integração, usa o senso de oportunidade que Deus lhe deu e desce uma baita muquetada na nuca do infeliz. O tapão é tão vigoroso que faz Robson trançar as pernas duas vezes e desmontar no chão feito um monte de bosta. Todo o coletivo acompanha a cena; emudecidos, pálidos paralisados pensativos. Por um sinal vermelho inteiro ninguém parece vivo ali. Até que, ainda de pé, puxando o fôlego das pernas xiliquentas, Seu Antunes dá a letra, explodindo em ar e saliva toda a honra enfiada no cu:

- LINCHA O FILHO DA PUTA!

Seu pulo espartano garante o privilégio da primeira bica no nariz do filho da puta e bota todo o coletivo na festa da desforra. Ligado nas necessidades do povo, Tião dobra uma viela escura e para o ônibus: todo mundo tem o direito de arrancar seu quinhão de vinganç da desigualdade social.

Um ligeiro desassossego noturno no Lauzane 178L.

Você disse que nunca teve alguém que te amasse? Então vem cá que eu vou te amar.

Postado em Você disse que nunca teve alguém que te amasse? Então vem cá que eu vou te amar. com as tags , , em 21/12/2010 por luizprado

- Você disse que nunca teve alguém que te amasse? Então vem cá que eu vou te amar.

Ivete desligou a tv e deixou seus sonhos para o dia seguinte. A roupa estava no tanque e até amanhã tudo tinha de estar lavado e passado. Ainda bem que o calor era infernal e o baile da noite anterior não tinha comprometido muito suas obrigações. Mateus e Terezinha já estavam na cama e Fabrício suava em cima do caderno de tabuada. A lâmpada incandescente descia sem lustre no meio da sala e mais uma vez deixava Ivete angustiada.

Fazia cinco ou seis semanas que o irmão tinha se suicidado? Qual era a diferença, se a dor não podia ser medida no calendário? Tomé era quem jogava alguma alegria e segurança naqueles quatro cômodos da Vila Hebe, antes inundados por enchentes insensíveis e agora pelas lágrimas contidas de Ivete. Seu irmão, seu querido irmão. Morto.

Encontrara-o numa terça-feira à tarde, na volta da feira. A sacola caiu no chão e Fabrício pisoteou o cacho de bananas em desespero. A gravata vinho enrolada no pescoço, os pés uns cinquenta centímetros do chão. Debaixo da cadeira caída, Doutor Silvana, o cachorro, se enfiava pelo meio. Na ocasião Ivete não chorou nem gritou. Manteve os olhos abertos, e depois de dois ou três minutos lembrou que deveria ter tapado os de Fabrício.

A vizinhança soube logo; Ivete era de guardar poucos segredos e sua franqueza fazia par com o sorriso: virava a cabeça dos homens do bar da esquina e deixava o irmão cheio de cólera. Correram especulações sobre causas e pessoas e dona Janete, vizinha do lado, mulata encurvada sempre com lenço na cabeça, mais de uma ocasião fez Jaqueline, da casa da frente, chorar, acusando a mulher de infiel, de ter feito cabeça de Tomé e destruído a vida do homem. Na realidade, o que dona Janete conseguiu foi destruir o casamento de Jaqueline. O marido foi embora levando o maço de cigarros e a camisa do timão.

No velório a rua inteira apareceu e não se falava de outra coisa além do bilhete de despedida de Tomé. Ivete confirmava a existência de tal documento, mas baixava os olhos e se calava quando perguntavam do conteúdo. Uns afirmavam que lá tinha o nome de Jaqueline, e por isso ela não compareceu na despedida. Outros já diziam que a história era outra, envolvia dívida de bilhar e uns negócios com malhas e confecções que não deram certo, endividando ainda mais o homem.

As explicações eram muitas, mas raramente escapavam do dinheiro ou do corpo. Carlos, despachante com filhos em escola particular, era quem apresentava o mais peculiar dos contos. Jurava ter visto Tomé conversando com o pastor uns dois dias antes, falando coisas sobre ter concluído sua missão na Terra, que já podia se retirar. Chorava muito, segundo Carlos, e quase gritava dizendo-se um pecador.

- Um pecador, pastor, um pecador que pecou por mando de Jesus!

Ivete dava pouca atenção a essas histórias. E continuou assim nas semanas seguintes, até uma amiga resolver que dançar poderia fazer bem para o astral da mulher. Ajudou só no imediato. Chegando em casa, tudo lembrava Tomé e a angústia fazia questão de entrar pelo portão da frente. Mesmo assim, não recusava os convites da amiga, como não recusou a noite passada.

Bem rápido estendeu as roupas no varal e tratou de preparar um café, do jeito que Tomé gostava. Tomou dois goles e decidiu se deitar; mesmo com o corpo sem cansaço às vezes se consegue fazer o sono vir. Ele não veio tão fácil.

Pensando sobre o mundo, a vida, a casa, todas as coisas que existem ou já existiram, sua própria situação, Ivete percebeu algo. Uma percepção de arregalar os olhos, capaz de colocar a mulher de pé. Rápido se levantou e buscou os papéis de óbito do irmão. Revirou a gaveta, jogou carteira de trabalho, fotografia 3×4, vale refeição; tudo caindo no chão, sem preocupação alguma. Finalmente localizou o papel. Os olhos corriam rápido para a data da morte. Dessa vez Ivete também não chorou, mas deixou o queixo cair, atonitamente. Bastante atonitamente.

Fez as contas de cabeça; recontou nos dedos. Não podia. Não deveria. Não, e é isso. Correu até o banheiro. Nem se preocupou em trancar a porta, desespero circulando junto do sangue por todo o corpo.

O primeiro a ver Ivete chorando e sem roupa foi Mateus. Seus olhos também se arregalaram enquanto tentava entender o que sua irmã queria dizer com “por que não sangra? Por que não sangra, porra?!”

Nostalgia

Postado em Nostalgia com as tags , , em 14/12/2010 por luizprado

Um som de mar, uma nostalgia, um bom cigarro e tom jobim passeando no piano como se tocasse uma mulher. Ela sorrindo, desenvolvendo os dedos pelos cabelos, seus cachos acariciando os ombros e os olhos escorrendo alegria em paz. Até mesmo o barulho do vinho caindo na taça parece canção e minha voz rouca parece perfeita para um dueto com seus agudos de veludo. Uma impossibilidade de parar de sorrir e, meio bobo, meio realizado, nem mesmo posso saber se isso é estar mais vivo do que sempre estive ou estar numa realidade onírica mais minha pensamento do que mundo-o-que-ele-é. Mas não importa, fotografada, registrada, completamente imortalizada na razão de ser dos melhores momentos da minha vida lá está você e sempre que eu sorrir de melancolia, tentando buscar um momento bom, um amparo para a tristeza e o cotidiano bruto e sujo, será com você que eu irei estar. E por um instante sentirei um conforto doído no coração, querendo o que não volta, tendo medo por voltar e não ser como deveria. E baterei os gelos no fundo do copo, virarei o último gole, pagarei a conta e espantarei a felicidade para bem fundo, onde ela não pode incomodar. Como todos nós costumamos fazer.

Mar de Milagres

Postado em Mar de Milagres com as tags , , em 12/12/2010 por luizprado

Não me lembro exatamente das circunstâncias em que ela me disse eu te amo. Pode ter sido numa tarde nublada de agosto ou num dia chuvoso em setembro, sei lá. Talvez até mesmo via sms, logo depos de sair do metrô; se pá um e-mail lido tarde da noite, curtindo um banza e dizendo foda-se pro trampo no dia seguinte. Não importa. O que eu sei é que não foi numa praia, num barco, num farol apagado ou num moinho abandonado e eu muito menos tava num puta alto astral.

Mas eu fiquei feliz, disso tenho certeza. Porque a partir daí comecei a executar minha vingança.

Mar de Milagres

Na quarta série eu era um gordinho bocó com rinite apaixonado pela Letícia, nada muito além disso. Usava lancheira das tartarugas ninjas, tomava tonyu de maçã no recreio e não batia figurinha pra não amassar ou sujar. Empapava o cabelo com gel mas, foda né, não conseguia ser mais popular do que tinha sido na terceira série, ou seja, eu não era merda nenhuma. Ah, claro, eu ainda curtia sérios problemas por terem me descoberto escrevendo na porra do meu diário – sim, com 10 anos as crianças já sabem apontar e te chamar de viadinho, lembra? Claro, eu tinha que estar jogando bola e sendo cool pra caralho mas, lembre-se, eu era um gordinho bocó com rinite. E sempre era escolhido por último na educação física.

Levou um tempo pra gente arrumar um termo que definia a Letícia: vadia. Explico: em oito meses de aula ela já tinha beijado o Marcinho, o Peteca, o Chupetinha, o Laury, o Bóris e o Cavaco. Também tinha deixado passar a mão o Shiryu, o Rodney e o Murilão e, finalmente, tinha mijado na frente do Robertinho e do Péricles. E só o Bruno, o Palilo e eu ficamos de fora da iniciação sexual da menina. Sacou nossos motivos? A gente segurou a merda dessa frustração até a quinta-série, quando concluimos que jogar uma história de RPG passada na nossa classe onde a gente beijava e transava com a Letícia era a mesma coisa que fazer isso de verdade, já que o RPG era mais real que a vida. Que merda. Enfim, a gente ficava conversando, batendo punheta e se lamentando, três palhaços no first love.

E então, de repente, na sexta série, ela começou a dizer oi tudo bem. E olhei pra um lado, olhei pra outro e tcharam!, acho que estávamos amigos. Demorei um tempo pra sacar a situação e entender que porra de motivo levava ela a curtir sempre fazer trabalho com a gente. Ela trouxe junto a Sofia, que era vesguinha e ria de qualquer merda falada pela Letícia; hoje eu acho que ria era da nossa cara mesmo, mas eu vivia as ingenuidades da paixão naquela época. Mesmo com esse overbooking de garotas no nosso recreio não teve jeito: tretei feio com o Bruno, ficamos um mês sem olhar na cara e fodemos nosso jogo de RPG. A gente só tinha olho era pra Letícia mesmo. E ela, sem saber, ela era a namorada secreta dos dois, e aí é foda né. Mas ainda acho que ela foi mais minha do que do Bruno. Cuzão.

Finalmente (aê!) na sétima série (aê!) juntei coragem no estômago (aê!) e tomei um fora nervoso da mina (aaah!). O bonitinho da vez era um tal de Jackson, do ensino médio, um skatista que já tinha fumado cigarro e deixava as calças lá embaixo, metade da cueca aparecendo, pra todo mundo pagar pau por ele ser tão da hora. Eu já não era mais tão gordinho, mas ainda era o nerd jogador de RPG da sala – e isso, bróder, fodeu pra caralho a minha vida social, por muito tempo. Tudo bem, uma vez eu fiquei com a Márcia, 6ªB, mas a vergonha me impediu de espalhar pros amigos a façanha. A gente chamava ela de cesta básica: não era a comida mais firmeza da geladeira, mas na hora da fome a gente mandava ver sem reclamar.

Mudei de escola no primeiro colegial e aí perdi contato com a Letícia – pro alívio do meu coração juvenil. Comecei a mandar bem: flertei com a Camila, beijei duas vezes a Mônica e namorei, no fim do segundo, com a Renatinha – até ela vomitar que a mãe exigia o fim da coisa toda. Mentirosa filha da puta.

Com o advento do Orkut – quem diria! – a Letícia me apareceu por lá. Eu me fodia legal no cursinho nessa época, e a gente trocou um lero firmeza por meses, só no flertizinho virtual. Mais escolado que nunca nessa vida com meninas, acabamos finalmente saindo: tomamos um mate gelado e assistimos Eragon – óbvio que não fiquei com ela na primeira vez, dããr. Repetimos esse esquema umas quatro ou cinco vezes até o primeiro fucking God! beijo, e eu me senti navegando na porra de um mar de milagres! Caralho, velho, caralho, sabe o que é a porra de uma espera juvenil de oito anos? Foda-se que ela tava com uma cara de vida hardcore loki, de quem curtiu tanto tanto tanto que precisa mesmo parar um pouco e respirar na bombinha de ar; eram meus sonhos de juventude servidos no final da festa, tipo o videogame que o Lucas Silva e Silva ganha do tio Dudu no final do primeiro episódio do Mundo da Lua, saca?

E daí continuamos até o surpreendente parágrafo inicial dessa história.

- Eu te amo.

Claro que sorri e dei um abraço forte. Claro que dei o melhor de mim pra esboçar felicidade. Claro que estava explodindo por dentro.

Primeiro foram dois rápidos dedos nos olhos, sangue descendo em forma de lágrimas. Depois um tapão nas zoreia, um pisão fudido no pé e pronto! Ela já tava no chão, estrebuchando por sua vida de merda. Ainda bem que eu tinha uma tesoura no bolso.

- Não vai beijar mais, filha da puta. – E já era. Ela gritou de uma maneira fenomenal e eu gozei nas calças. Cara, isso era muito melhor que punheta.

- Mentira: agora você vai só ME beijar. – E coloquei aquela toco de língua na minha boca e mastiguei, mastiguei, mastiguei, enchendo de bica aquele útero que devia tá cheio de aborto.

- Geme, filha da puta! Geme, seu monte de bosta! Vai se foder, caralho! Vai se foder!

Catei a tesoura e mandei ver no cabelo da vadia. Destrui aquela merda loira. Então parti pras unhas.

Na segunda ela desmaiou.

Daí eu voltei pra casa num pinote, peguei minha identidade falsa e fui passar um tempo no Paraguay. É claro que eu nunca me esqueci da hora e lugar em que a desgraçada me disse eu te amo, mas fala sério, acha que eu ia contar pra vocês e depois a geral vir atrás de mim foder minha vida? Se liga, bróder!

Escarrei ao invés de sorrir

Postado em Escarrei ao invés de sorrir com as tags , , em 26/10/2010 por luizprado

Não é bem desistir de você. É simplesmente não admitir mais acordar com aquele cheiro de vômito e com uma ressaca de quem não aproveitou a noite como gostaria, entende?

É óbvio que eu poderia ser seu amigo e assistir todas as trilogias clássicas do cinema norte-americano às quartas-feiras; também seria uma happy sad vez ou outra receber sua ligação para um jantar ou mostra da pinacoteca. Mas… e o drama da minha vida? E mais: minha dignidade? Não, querida: escarro nessa boca que já não me beija.

Você anunciou sua emancipação com palavras tateadas e o olhar mais fixo de todos os nossos dias; estava nos encaminhando para o clímax. Assim, compreenda, não posso desapontar nossos espectadores me contentando com sua amizade bege, insossa, outonal. Não. Me permita quebrar cadeiras, destroçar meu aparelho celular e desligar o interfone na cara do síndico. Patéticas banalidades domésticas, ao menos.

Ah, claro: lembre-se também que não admito te encontrar daqui vinte anos com uma longa mecha branca contrastando com um cachecol militante – enfie suas necessidades políticas! Enquanto eu falava de amor você retrucava socialismo. Então agora me permito um individualismo sentimental e não tenho medo de ser cuzão quando prefiro minha felicidade ao seu combate à exploração. Uma coisa não contradizia outra até você me preterir. Sou teu inimigo daqui para sempre mas, na luta de classes, você percebe que sou eu quem não tenho mais nada?

Fique com sua plena vivência e sentimentos de encontro. Eu vou à desforra nestas palavras.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.